Monday, October 24, 2016

Transtorno Bipolar, 40 dicas!

Recalcule a sua rota
Para que a doença não limite você a nada, sugerimos 40 dicas capazes de melhorar o diagnóstico e aumentar o impacto da terapia

Transtorno Bipolar, 40 dicas!


Revista Transtorno Bipolar: Texto Jéssica Frabetti /Design Renan Oliveira

Saiba mais sobre tratamento do transtorno bipolar!
A estimulação magnética pode ser uma opção para tratamento do bipolar!

1 Aceite a doença. ”Quando o paciente aceita que precisa de tratamento psiquiátrico, esse processo torna-se mais fácil e eficaz” , destaca a psiquiatra Maria Cristina De Stefano.


2 Confie em especialistas. “A maioria das doenças se cura espontaneamente ou com quase interferência médica, porém, os transtornos mentais podem ser controlados, atenuados, e até curados, com um tratamento adequado”, indica Maria Cristina.


3 Respeite o tratamento. Ao receber a terapia indicada por um profissional, é importante integrá-los ao dia a dia , em doses e horários certos definidos pelo seu psiquiatra.


4 Durma bem. Especialistas indicam dormir ao menos 8 horas por noite. “O corpo cansado, exausto e estressado fica mais propenso a adoecer”, indica Maria Cristina.



5 Saiba o que evitar! Algumas substâncias, tanto lícitas (medicamentos em demasia, cigarro, café e álcool) quanto ilícitas (maconha, cocaína, LSD e crack), não são indicadas para quem tem o transtorno. “Elas modificam as funções e diminuem a vida dos neurônios”, destaca Maria Cristina. Além disso, um fator que pode contribuir para o desenvolvimento da bipolaridade é a dependência química.



6 Fuja do estresse negativo. “Uma pessoa submetida ao estresse constante e intenso tem mais chance de adoecer ou de ter uma crise emocional, principal desencadeante das alterações do humor”, afirma Maria Cristina.



7 Tchau pessimismo! Se possível, observe as pessoas com quem convive diariamente e evite indivíduos pessimistas, controladores estressados, tensos e explosivos. “As crises alheias podem agravar os seus sintomas. Busque manter relacionamentos com pessoas que influenciem sua vida de forma positiva, com calma, aceitação, compreensão e estabilidade”, destaca Maria Cristina.


8 Pratiquem atividades psicofísicas. Algumas práticas físicas feitas ao ar livre, por exemplo, são capazes de estimular o corpo e ainda fornecem sensações prazerosas, o que  ajuda estabilizar e manter o humor, pois isso libera endorfina, um dos neurotransmissores capazes de desligar a adrenalina, hormônio comum em situações de estresse.


9 Tenham companhia para exercitar-se. Nas fases de euforia , pode ser mais fácil manter atividades físicas, entretanto, em seu oposto, pode ser mais difícil. Por isso, procure companhias que estimulem, principalmente em momentos deprimidos. “Exercícios físicos facilitam uma neuroquímica mais equilibrada e acalmam a mente” afirma o hipnoterapeuta e psicólogo Bayard Galvão.


10 Busque tranquilidade. Seja através de caminhada tranquila, uma volta de bicicleta, olhar as nuvens passando no céu. Preste atenção nesses momentos que são apenas seus e faça deles os melhores.


11 Lazer é importante, sim! “Fazer algo que dá prazer é uma forma de manter o bom humor e a autoestima”, ressalta Maria Cristina.


12 Aprenda a ser espontâneo. O hábito tem capacidade de desenvolver a autoconfiança, importante para evolução do tratamento.


13 Frequente um acupunturista. “A técnica promove relaxamento, libera neurotransmissores importantes tanto para a recuperação de lesões cerebrais como periféricas, e, em consequência, evita crises”, recomenda a psiquiatra.



14 Descubra o toque.  Massagens podem liberar ocitocina, conhecida como hormônio do amor e, como efeito, além de ajudar no relaxamento, modula o humor e a ansiedade.



15 Atente-se ao seu prato. Quem tem a doença precisa manter uma alimentação balanceada, nem que seja preciso interferência médica ou nutricionista. “O transtorno bipolar pode levar a queda ou aumento do apetite, da voracidade à anorexia, portanto, o déficit de vitaminas no organismo, assim como a obesidade, agravam os sintomas de humor alterado”, aponta Maria Cristina.


16 Reduza (o máximo que puder) o açúcar! Essa dica é geral, porém cai muito bem para quem possui a doença. O açúcar em excesso pode levar à obesidade e aumentar a ansiedade. A cada dia, diminua um pouco e aprenda a dizer não à oferta de doces sem se sentir culpado ou constrangido.


17 Mantenha-se firme aos seus propósitos. “A assertividade é um dos componentes da saúde mental e pode ser aprendida e treinada nas sessões de psicoterapia”, comenta a psiquiatra Maria Cristina. Tal hábito pode ser liberador para quem sofre com ciclos de euforia-depressão.


18 Escreva e detalhe seu dia. Guardar anotações do seu dia a dia, de momentos que o deixam feliz ou o oposto, o que fez e o que deixou de fazer, é uma forma de entender o que acontece com você e o que está contribuindo ou não para a melhora da doença. “As anotações também vão contribuir para o controle dos efeitos das medicações e ajudam seu médico a ajuda-lo mais ainda”, destaca a psiquiatra.


19 Alimente (positivamente) a química do seu corpo. Busque se conhecer, observando momentos de irritabilidade, tristeza, desânimo, excesso de felicidade e inquietações. “Em seguida escreva o que teria passado pela sua cabeça ou acontecido à sua volta logo antes (até 15 minutos ) da emoção em questão. O tempo para o pensamento virar sentimento ( seja trazendo alegria, tristeza ou raiva) é de 0.2 segundo, tempo para um pensamento alterar a química do corpo, gerando o que se chama de emoção”, explica Bayard.


20 Aceite ajuda. Saiba que, mesmo buscando conquistar o controle, tudo bem receber ajuda. Isso, inclusive é uma ótima forma de acelerar o tratamento. “Guardar mágoas, ressentimentos e tristezas pode desencadear períodos depressivos. Aprender a desabafar sem buscar culpados nos liberta da raiva e nos leva a achar soluções realistas e possíveis, economizando nossa energia emocional”, comenta Maria Cristina.


21 Busque seu direito de tirar férias. Mesmo que seja autônomo, procure investir e separar um momento de descanso total, desligando-se o máximo possível. “O tempo de férias não deve ser menor de 20 dias, pois só neste período é que diminuem os hormônios do estresse”, recomenda a psiquiatra.


22 Realize-se no seu trabalho. Ok, pode parecer idealístico, mas você pode controlar isso também, buscando não acomodar-se. Invista em você até que o leve a um trabalho no qual se sinta gratificado e respeitado. “Mesmo não sendo fácil encontrar esse caminho, atuar em uma área de interesse e afinidade faz com que o trabalho seja recompensador e agradável”, evidencia Maria Cristina.


23 Adote um bichinho. Além de evitar o abandono, a adoção pode trazer estímulos surpreendentes para quem convive com a doença: “traz alegria, ensina a cuidar e a valorizar vida, seja ela qual for, liberta nossos interesses e instintos, além de desenvolver nossa compaixão”, comenta a psiquiatra. No entanto, a ação de cuidar deve ser pensada e realizada com responsabilidade.


24 Tenha em quem confiar. Principalmente em momentos de euforia, antes de tomar alguma decisão, verificar com alguém em quem confie se a compra, investimento ou atitude por fazer parece  ser boa. “Quando a pessoa está excessivamente alegre, é fácil tomar decisões de maneira inconsequente”, afirma Bayard.


25 Quando estiver muito triste, desvie a atenção. “Caso fique pesado demais lidar com a dificuldade sozinho, deixe para fazê-lo em consultório com o psicoterapeuta”, recomenda Bayard.


26 Tenha um mantra toda vez que pensar em suicídio. É um tema difícil de administrar, pois cada um lida com o momento de tristeza de uma forma. No entando, buscar entender esse pensamento negativo como um momento ruim, que a “tempestade passará”, ajuda a dissipar as “nuvens”.


27 Aproveite o presente! Em situações de tristeza, aprenda a valorizar o que você tem hoje e tudo de bom que a vida tem para oferecer no momento presente. “Não é incomum as pessoas tornarem insensíveis à realidade, buscando apenas felicidades intensas, relacionamentos perfeitos, sucessos sem esforço e variações, que quando confrontados com o mundo, este dá a impressão de ser sem graça e pouco, trazendo inúmeras tristezas e frustrações”, relata Bayard.


28 Relembre!  Sabe aquilo que você escreveu em algum momento de felicidade? Não hesite em revisitá-lo e reviver boas experiências e vivências. Mas cuidado! “A diferença entre saudade e nostalgia é que a primeira é saudável e alimenta a vida, a segunda, dificulta o presente e se torna uma areia movediça”, ressalta o psicólogo Bayard.



29 Cuide da sua felicidade. Para isso, é preciso entender que ela uma escolha e não um lugar para chegar! Por isso, deixe-se levar pelo caminho  mais alegre. Bayard exemplifica: “é fato que as pessoas não têm claro o que lhes dá prazer ou felicidade, mas sim o que elas acham que trará prazer. Um raciocínio para diferenciar um e outro é buscar nas lembranças e se perguntar: do que eu busco hoje que me trará felicidade, quanto eu já vivenciei de maneira similar a situação?”.


30 Leitura é poder. “Caso o paciente tenha medo de perder o emprego, ficar sem companheira(o) ou ficar doente, ele pode buscar sabedoria para viver bem com um pouco dinheiro, solteiro(a) e sabendo que um dia pode adoecer. Não foram poucos os que escreveram sobre estes assuntos, como Sêneca (filósofo do século I) e Montaigne (filósofo do século XVI)”, indica Bayard.


31 Faça um lista das ações importantes. “É essencial que as pessoas aprendam a fazer ações sem ter vontade, seja tomar banho, trabalhar, fazer exercício, estudar e todas as responsabilidades e necessidade para um viver saudável”, recomenda Bayard.


32 Não tenha vergonha. Tenha claro que não é só você que possui algum tipo de doença psiquiátrica. “Quanto mais tratamento, melhor, e não é preciso ter vergonha. Viver é simples apenas nas fantasias”, comenta o psicólogo.



33 Observe 3 prós e 3 contras em episódios de mania (euforia). “Na mania, também chamada de euforia, é fácil as pessoas tomarem decisões que, caso não foram pensadas, podem provocar muitos problemas, como comprar um carro novo ou pedir demissão de um emprego, arrependendo-se depois, quando não estiver em crise”, recomenda Bayard.


34 Evite, sempre que possível, grandes atitudes. Ou pelo menos toma-las sem avaliar a relação custo/benefício em curto, médio e longo prazo, pois emoções extremas tendem a atrapalhar o tratamento.


35 Busque alívio sempre que precisar. Não tenha vergonha em investir em você! Tenha, como compromisso, atividades minimamente prazerosas (ou que tragam alívio) semanalmente. “O ser humano precisa de doses diárias de prazer para ter uma vida mental saudável, seja um café da manhã agradável, ouvir boas músicas ou pintar”, indica Bayard.



36 Escreva (sim) para se entender! Especifique sempre os sintomas que sentiu em determinadas épocas e tudo o que também aconteceu no mesmo período. “Quando tornamos os nossos sentimentos claros para nós, eles se tornam mais superáveis”, destaca o psicólogo clínico.



37 Saiba quando espairecer. “Tenha sempre uma lista possível de distrações para os momentos em que a vida ficar mais pesada, seja jogos no celular, músicas no carro, academia, cinema ou apenas descansar. Distrair-se das dores as anestesia momentaneamente”, aconselha Bayard.



38 Busque sempre entender a origem. O que deixou triste ou muito eufórico em um certo episódio pode ter uma causa maior. “Muitas pessoas acreditam que qualquer coisa as fez ou faz mudar repentinamente de humor, sem razão alguma. Mas a realidade é que essa alteração tende a ser um gatilho que fora disparado, com ou sem percepção da própria pessoa”, explica Bayard. Se necessário, conserve com o seu médico para entenderem juntos o que cada emoção significou.



39 Analise se feriu alguém. “escrever num papel ou celular os pensamentos que machucaram alguma pessoa ao longo do dia, não importa se for sobre relacionamentos, profissão, autoestima ou outro, poderão fornecer dados muito importantes para a superação do sofrimento atual, principalmente se trabalho com um psicólogo”, detalha Bayard.




40 Respire. Sim, o ato é involuntário, mas quando você traz a atenção para a sua respiração, isso o faz relaxar, seja qual for o momento. Imagine o ar entrando, preenchendo suas cavidades, células, e solte o ar com calma, liberando qualquer tensão, seja de corpo ou da mente.
Revista Transtorno Bipolar – 40 – Ano 2, N. 2 – 2016

Monday, October 17, 2016

Conheça os benefícios e os malefícios do eletrochoque


Conheça os benefícios e os malefícios do eletrochoque

O retorno da técnica, aperfeiçoada, aconteceu nos anos 2000, mas ainda não está totalmente claro por que a convulsão induzida produz benefícios relatados por pacientes









Como muitas outras descobertas da ciência, a associação entre convulsão e abrandamento dos sintomas psiquiátricos aconteceu por acaso. Considerado um dos fundadores da neurologia, o Nobel de medicina e fisiologia Julius Wagner von Jauregg percebeu, no início do século 20, que pacientes de transtornos mentais com infecções graves, que levavam a uma febre alta convulsiva, apresentavam melhora significativa. Testes conduzidos por ele em pessoas com neurossífilis avançada — doença incurável e progressiva, que leva a depressão, paranoia e comportamento violento — foram bem-sucedidos e abriram caminho para outras experiências.

No início, substâncias como cânfora e insulina foram usadas para induzir a convulsão em pacientes psiquiátricos. Até que, em abril de 1938, o neurologista italiano Ugo Cerletti conduziu a primeira sessão pública de eletrochoque em um laboratório da Clínica de Doenças Nervosas e Mentais da Universidade Régia de Roma. De acordo com Alessandro Aruta, pesquisador do Museu de História da Medicina da Universidade de Roma, o paciente era um jovem esquizofrênico, levado pela polícia ao hospital semanas antes, depois de ser encontrado vagando pelas ruas da capital. Sem exibir sinais de emoções e incapaz de se comunicar, ele foi deitado em uma cama e teve dois eletrodos encostados nas têmporas. “Depois do tratamento, o paciente começou a se interessar pelo que havia em sua volta; a mente clareou e pareceu estar em boa saúde”, descreve Aruta em um artigo publicado no jornal Medical History.



A indução da convulsão por meio da eletricidade continuou mostrando bons efeitos para minimizar sintomas psiquiátricos. Contudo, à custa de enorme sofrimento e desrespeito aos direitos humanos. Por décadas, o eletrochoque foi aplicado em alta voltagem, contra a vontade do paciente, que, diferentemente de hoje, não era anestesiado nem recebia relaxante muscular. Dessa forma, além de estar acordado durante o procedimento, o corpo inteiro convulsionava, provocando dores e gerando as pavorosas cenas do doente se debatendo, enquanto amarrado ou segurado por vários enfermeiros. Sem ninguém para regular sua aplicação, a técnica se banalizou, passando a ser usada para indicações controversas, como em usuários de drogas — algo proibido atualmente —, ou para punir/acalmar internos de clínicas e manicômios.


Minervino Junior/CB/D.A Press


A partir de meados da década de 1970, denúncias e críticas sobre o eletrochoque se intensificaram. Aos poucos, vários países começaram a bani-lo. No Brasil, pouco a pouco foi desaparecendo dos hospitais públicos — em Brasília, a última sessão no Hospital de Base ocorreu em 1991. Contudo, com o aperfeiçoamento da técnica, o rigor das diretrizes de associações médicas nacionais e internacionais e as evidências científicas da melhora dos pacientes, a ECT começou a voltar nos anos 2000, sendo oferecida, hoje, em alguns hospitais universitários em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro e em Pernambuco, entre outros. No Hospital Universitário de Brasília (HUB), não há o serviço.

O psiquiatra e pesquisador Moacyr Alexandro Rosa, vice-presidente da Associação Brasileira de Estimulação Cerebral (Abecer), explica que os mecanismos de ação da eletroconvulsoterapia ainda estão sendo pesquisados. “Os efeitos são semelhantes aos dos fármacos, ela reduz receptores, libera hormônios e altera o ritmo cerebral. Mas faz isso de forma mais rápida. A depressão pode ser uma doença mortal. Quando você tem um paciente com risco de suicídio, não pode esperar semanas até que o remédio faça efeito”, defende. “Depois do tratamento, você observa que houve modificações nas conexões entre os neurônios, alterações em áreas cerebrais. A ECT parece organizar os circuitos neurais”, complementa a psiquiatra Raquel Carvalho Mergulhão, que atua com a técnica.

Vontade de viver
Se, no passado, a ECT causava medo nos pacientes, hoje eles parecem bastante à vontade com a técnica. Depois de um tratamento de 11 sessões, o engenheiro civil Eduardo (nome fictício a pedido do entrevistado), 38 anos, diz que o tratamento devolveu a ele a vontade de viver. Desde 2014, ele vinha travando uma batalha contra uma depressão severa, desencadeada após um episódio de síndrome de pânico, que o afastou do trabalho, da vida social e da própria casa. “Eu estava numa apatia total, não conseguia comer, não conseguia dormir nem com medicamento. Comecei a ter ideias suicidas”, conta. Eduardo voltou a morar com os pais. “Nem os antidepressivos estavam fazendo efeito. Trocava de remédio e nada. Também fiz terapia e não vi melhora”, recorda.

Diante desse quadro, um psiquiatra o encaminhou à ECT. Desconfiado, o engenheiro não acreditou que a técnica poderia ajudá-lo, mas foi incentivado pela família. “O apoio dos meus pais foi fundamental. Eles ficavam o tempo todo ao meu lado, sempre me acompanhavam e conversavam com os médicos.” De acordo com Eduardo, as sessões não traziam nenhum tipo de desconforto, mas, nos dias que se seguiam, ele costumava sofrer com um efeito comum e bastante incômodo da técnica: o esquecimento (veja infografia). Eduardo relata que a melhora foi gradativa. Seis meses depois do tratamento, ele voltou a morar sozinho. “Hoje não tenho mais nada. Trabalho bem, tenho muitas amizades, participo de muitas coisas, gosto de sair”, enumera. “Quero viver bem para compensar esse período em que fiquei deprimido”, diz.

Lados de uma mesma moeda

Você sabia que existem diferentes tipos de transtornos de humor? Confira!


Revista Transtorno Bipolar. Texto Jéssica Frabetti Design: Rafaelle Bortolan/colaboradora

De acordo com a associação Brasileira de Transtorno Bipolar (ABTB), a doença é uma condição médica frequente – estima-se que cerca de 1,8 a 15 milhões de brasileiros sejam portadores do transtorno bipolar. Entretanto, o problema pode se infestar em diversos graus, sendo apresentado em quatro tipos numa escala de formas mais leves e mais graves, quando atrapalha completamente a rotina do indivíduo. “ O que vai apontar o nível é a frequência, a gravidade e a duração. No primeiro nível, por exemplo, a pessoa consegue executar suas tarefas diárias”, indica a psiquiatra Maria Cristina de Stefano.

Seja qual for o quadro, a variação de humor constante não é saudável e é preciso ser reconhecida o quanto antes.

Saiba mais sobre tratamento da depressão bipolar!

TRANSTORNO BIPOLAR TIPO I
Esse tipo de transtorno acomete cerca de 1 % da população mundial e deixa o humor do doente exageradamente elevado  expansivo (mania) e pode prejudica-lo nos círculos sociais. Além disso, o indivíduo também pode passar por períodos de sentimentos negativos, perda de apetite e insônia. “Em quadros como esse, o que mais chama atenção é a desproporção entre as reações, ou seja, quando não há acontecimentos no ambiente em que a pessoa está e  que justifiquem tal comportamento alterado”, explica Maria Cristina.

TRANSTORNO BIPOLAR TIPO II
Essa forma de apresentação difere-se do tipo I devido ao nível de humor, menos elevado e agressivo, sendo assim chamado de hipomania. De acordo com o Manuel Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, pessoas com transtorno bipolar tipo II normalmente apresentam um episódio depressivo maior, sem que os estados euforia mais amenos (hipomania) causem prejuízos pontuais para a vida do paciente.

TRANSTORNO CICLOTÍMICOS
Tem como característica essencial a oscilação frequente de humor, com sintomas alternados de euforia e depressão moderados. É considerado um dos menos graves, já que, muitas vezes, pode ser confundido com a própria personalidade da pessoa. Porém, de acordo com o Manual, embora alguns indivíduos com esse tipo possam não ter problemas com certos períodos de hipomania, o prejuízo social acontece em decorrência das mudanças constantes de humor, ou seja, o indivíduo pode ser visto como temperamental, mal-humorado, imprevisível, incoerente ou não confiável.

TRANSTORNO RELACIONADO INDUZIDO POR SUBSTANCIA OU MEDICAMENTO
Tanto no transtorno bipolar quanto no transtorno relacionado induzido, as característica diagnosticadas são as mesmas: mania, hipomania e depressão. O que varia é que no segundo os estados surgem e se tornam um problema devido a uma substância. Isso ocorre por causa dos efeitos  colaterais de alguns fármacos antidepressivos e outros psicotrópicos. Entretanto, segundo o Manual, quando acontecem casos de da hipomania ou mania após uso de medicamento antidepressivo ou outros tratamentos e persistem além dos efeitos fisiológicos do fármaco, essa condição é considerada indicadora de transtorno bipolar real, e não de transtorno relacionado induzido.

Da para controlar?

O tratamento do transtorno bipolar é feito por especialistas de diversas áreas, como psicólogos, psiquiatras e neurologistas. “Em alguns casos, há a internação para proteger o indivíduo dele mesmo e também para que os médicos verifiquem quais medicamentos têm mais eficácia e eficiência”, explica Maria Cristina.

Quando a barriga dita o humor!

Maria Cristina explica que alterações no aparelho digestivo também podem originar várias doenças emocionais. Podem ser causadas pelas lesões das paredes do intestino; motilidade intestinal, que é a capacidade dos intestinos realizarem contrações para expelir o bolo fecal; alterações na flora bacteriana ou variação de hormônios responsáveis pela digestão-absorção. A má alimentação também pode prejudicar as funções mentais, como percepção, memória e até causar distúrbios de humor.

Estados de Humor

Mania

Esse estado também é conhecido como euforia, ou seja bom humor em excesso. É quando essa reação se torna um empecilho.
Sintomas:
– Hiperatividade
– Autoestima elevada
– Negação daquilo que é obvio
– Comportamento agressivo
– Irritabilidade extrema
– Aumento da vontade sexual
– Não reconhecer a doença
– Incapacidade de julgamento

Hipomania

É um intermediário do excesso da euforia, quando a pessoa continua com um bom humor em demasia, porém, menos que na mania, já que os sintomas não refletem tanto no dia a dia do indivíduo.

Depressão

Nesse estado, o indivíduo apresenta o ápice do mau humor.
Sintomas:
– Pensamentos negativos e suicidas
– Preocupação com fracassos
– Perda de energia
– Sentimentos de culpa
– Dificuldade em dormir

Thursday, October 6, 2016

Depressão e euforia caracterizam o transtorno bipolar



Depressão e euforia caracterizam o transtorno bipolar

Como uma montanha-russa
Momentos de depressão e euforia caracterizam o transtorno bipolar

Revista Transtorno Bipolar. Texto Ana Beatriz Casali/colaboradora, Design: Rafaelle Bortolan/colaboradora



Você, provavelmente até inconscientemente, acorda mais animado em alguns dias do que em outros – ou prefere adotar uma postura reservada em alguns momentos da vida. Isso é comum e pode ter relação com as tarefas a serem realizadas ao longo do dia ou um episódio recente, como uma promoção no emprego e a morte de uma pessoa querida. O problema surge, porém, quando essas oscilações de humor ocorrem de forma radical. O psicólogo Yuri Busin explica que pessoas que possuem transtorno bipolar sofrem mudanças, inclusive, mais duradouras do que as que não sofrem com a doença.
Saiba mais sobre tratamento do transtorno bipolar!
A estimulação magnética pode ser uma opção para tratamento do bipolar!

Todo cuidado é pouco!

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o transtorno bipolar é a sexta maior causa de incapacitação no mundo. O psiquiatra Sander explica algumas das consequências da doença:
Moral: mudança na vida social
Laboral: incapacidade para trabalhar
Psicológica: necessidade de acompanhamentos psicológico e psiquiátrico
Física: exposição a situações de risco e tentativas de suicídio
Econômica: endividamento
Criminal: agressões
Legal: dependência de terceiros para exercer atos legais, como anulação de contratos
Social: exclusão

Oito ou oitenta

O transtorno afetivo bipolar é caracterizado por alterações de humor – entre episódios maníacos (de euforia extrema) e depressivos – que têm intensidade e duração variadas de acordo com cada indivíduo. “É considerada um doença crônica que acomete cerca de 1,5% das pessoas em todo o mundo” , destaca a psicóloga Léa Biancamano Guimarães. A profissional pontua também que a importância do diagnóstico está na gravidade do transtorno, que pode levar o paciente à perda de emprego, inadimplência financeira, complicações legais, comportamento sexual de alto risco, risco de suicídio, divórcio e comportamento antissocial.

Hora de pedir ajuda

“Ao perceber mudanças de humor e se os sintomas permanecerem durante pelo menos uma semana e forem de um extremo ao outro com intensidade, deve-se levar a pessoa para a avaliação de um profissional qualificado para verificar o diagnóstico ”,alerta Yuri. O transtorno bipolar não tem cura, mas pode ser controlado. O psicólogo explica que, atualmente, o tratamento consiste na junção de acompanhamento psicológico e psiquiátrico ( através de medicamentos).

Euforia

Neste estado, o indivíduo apresenta sentimentos de grandiosidade, autoestima inflada, fala excessiva, aumento de atividades prazerosas ( como compras e investimentos desnecessários) e perda de inibição social. “Sua apreciação otimista da realidade é capaz de atingir níveis extremos, em que a pessoa pode se julgar ilimitada em capacidades como assumir dívidas e vencer  pessoas armadas”, afirma o psiquiatra.

Depressão

Trata-se da perda de interesses pessoais, falta de energia, forte sensação de angústia e sono desregulado (o paciente acorda muitas vezes durante a noite ou apresenta sono excessivo). “Atenção e memória podem ficar muito prejudicadas, interferindo no desempenho no trabalho, nos estudos e na capacidade de cuidar de um dependente, por exemplo”, explica o psiquiatra Sander Fridman. Além disso, desejo de morrer e planos de suicídio são sintomas que aumentam quando associados ao abuso de álcool.

Revista Transtorno Bipolar – 40 – Ano 2, N. 2 – 2016

Wednesday, October 5, 2016

Por que precisamos falar de suicídio com urgência

Pouco se fala sobre o assunto, mas no Brasil o índice de suicídio perde apenas para homicídios e acidentes de trânsito entre as mortes por fatores externos

Há pouco menos de um mês, celebrou-se o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. A data foi fundamental para trazer o tema à tona. Mas depois disso, pouco se falou a respeito. O suicídio ainda é um assunto considerado tabu por muitos e, por isso, pouco discutido. Entretanto, o número de pessoas que tiram a própria vida tem avançado muito — e silenciosamente. No mundo, a morte por suicídio já é mais frequente que por HIV entre os jovens. No Brasil, o número de pessoas que se suicidaram perde apenas para homicídios e acidentes de trânsito entre as mortes por fatores externos (o que exclui doenças).

Saiba mais sobre Tratamento de Depressão!

Perfil do suicida

No mundo todo, o suicídio é predominante no sexo masculino, com exceção da Índia e China. No Brasil, não é diferente. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) concluiu que os homens têm 3,7 vezes mais chances de se matar que as mulheres.
“A diferença [de taxas] entre os gêneros é geralmente atribuída a maior agressividade, maior intenção de morrer e uso de meios mais letais entre os homens”, concluiu o estudo da UFBA. Ainda segundo o texto, as mulheres “são mais religiosas, o que pode se tornar um fator de proteção”.

O psiquiatra Rubens Pitliuk, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, disse em entrevista ao G1 que a principal razão para os homens conseguirem efetivamente tirar a própria vida é a forma como eles tentam se matar. “Suicídio em homem é mais violento que em mulher. As mulheres em geral tentam [se matar] tomando comprimidos. É mais difícil a mulher se jogar de uma janela”, explicou ao G1.

O estudo brasileiro, um dos mais completos sobre o tema, analisou dados do Sistema de Informações sobre a Mortalidade Brasileira (SIM), Datasus e IBGE entre 2000 e 2012, e mostrou que as pessoas que mais cometeram suicídio foram as menos escolarizadas, indígenas (132% mais casos que na população em geral) e homens maiores de 59 anos (29% a mais que as outras faixas etárias).
De acordo com o Mapa da Violência de 2014 (mais recente), tem sido registrado um aumento no número de suicídios em todas as faixas etárias: crianças, jovens, adultos e idosos. “Os suicídios no país vêm aumentando de forma progressiva e constante: a década de 1980 praticamente não teve crescimento (2,7%); na década de 1990 o crescimento foi de 18,8%, e daí até 2012, de 33,3%”, relatou o mapa.

Jovens e idosos em risco

Os especialistas entrevistados pelo G1 demonstraram especial preocupação com os jovens – segundo o Mapa da Violência, entre 2002 e 2012 houve uma alta de 15,3% na taxa de suicídio nessa faixa-etária no Brasil – e idosos que são a faixa com o maior índice – 8 suicídios para cada 100 mil habitantes, a maior do Brasil, segundo o Mapa.

Para o psiquiatra José Manoel Bertolote, consultor da OMS e autor do livro “O Suicídio e sua Prevenção”, ainda são necessários mais estudos para entender as causas do aumento das taxas entre jovens e adolescentes. “Estudos feitos na cidade de São Paulo sugerem que a falta de perspectivas de vida para muitos jovens – insegurança física e econômica, desemprego ou falta de acesso – aliada à desatenção e ao despreparo do sistema público de saúde agravam ainda mais a situação”, disse ao G1.
A psicóloga Karen Scavacin, uma das revisoras do documento “Preventing Suicide – A Global Imperative”, elaborado pela OMS, afirma que outras características do perfil dos jovens devem ser levadas em consideração. “Tanto a criança quanto o jovem tem uma impulsividade alta (…), ele ignora a irreversibilidade da morte”, alertou em entrevista o G1.

O acesso fácil a meios de incentivo associado ao aumento nos casos de cyberbullying – bullying feito pelas redes sociais e internet – também foi apontado como um fator importante pela psicóloga. “Hoje em dia é muito fácil você pesquisar como cometer um suicídio em qualquer mídia social. As pessoas não levam em consideração quando um adolescente ou uma criança fala que pretende se matar e isso deve ser uma das coisas que mais influencia”.

Todos os especialistas entrevistados avaliam que, nestes casos, pais e amigos tendem a achar que um comportamento agressivo é apenas uma “fase” difícil do jovem. “Um adolescente às vezes tem uma depressão não diagnosticada que vai aparecer como agressividade. Não é aquela depressão que as pessoas imaginam de ficar na cama, de não fazer mais nada. O adolescente sente muita dificuldade de pedir ajuda”, completa Karen.

Segundo um relatório publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em setembro, “as tentativas de suicídio de adolescentes estão muitas vezes associadas a experiências de vida humilhantes, tais como fracasso na escola ou no trabalho ou conflitos interpessoais com um parceiro romântico”.

Já no caso dos idosos, Bertolote acredita que o aumento da taxa de suicídio esteja relacionado ao “acúmulo de problemas de saúde, em sua maioria doenças crônicas e incuráveis, muitas vezes dolorosas ou de tratamento penoso, associado a um isolamento social progressivo, causados pela viuvez, separações, distanciamento de filhos e netos, por exemplo”.

Karen ressalta o fato de que os idosos tendem a “planejar” o ato por mais tempo o que contribui para o “sucesso” do plano. “Para cada quatro tentativas do idoso, temos um suicídio completo. Se a gente pensar em um adolescente, são 200 tentativas para cada um suicídio completo. Ou seja: o adolescente tenta mais, mas o idoso chega a cometer mais o suicídio.”

Causas

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a maior parte dos suicídios é cometido por pessoas com depressão, independente de sexo, faixa etária ou qualquer outra característica. Uma cartilha publicada pela organização esse mês aponta 15 causas frequentes que influenciam na retirada da própria vida, como o uso de álcool e drogas, perda ou luto e outros transtornos mentais, como a esquizofrenia, transtorno de personalidade, stress pós-traumático e outras doenças psiquiátricas.

Como ajudar

Vanessa Muller, neurologista e diretora médica da VTM Neurodiagnóstico, alerta para comportamentos comuns em suicidas como: alterações drásticas de humor, dificuldade de concentração e de tomada de decisões, sentimentos de raiva e vingança extremos, além de ansiedade, irritabilidade, sentimentos de culpa e vergonha.

“Uma pessoa que estava muito depressiva e melhora absurdamente, ou a pessoa que é muito ansiosa e, de repente, começa a ficar muito tranquila. Essas mudanças drásticas podem ser apenas um resultado da tomada de decisão de cometer o suicídio e seu respectivo planejamento”, explica.
Bertolote aconselha a “se dispor a se aproximar de alguém que demonstra estar sofrendo ou que apresenta mudanças acentuadas e bruscas do comportamento, ouví-lo e, se não se sentir capaz de lidar com o problema apresentado, ir junto em busca de quem possa fazê-lo mais adequadamente, como um médico, enfermeiro, psicólogo ou até um líder religioso”.

Os médicos enfatizam a importância da pessoa com essa tendência ou intenção ser encaminhada a um psiquiatra para um tratamento adequado, além do apoio familiar. Entretanto, os medicamentos levam tempo para surtir efeito. Por isso, é preciso atenção redobrada nos primeiros 30 dias após uma tentativa de suicídio e no início do tratamento.

Depressão não precisa acabar em suicídio

“A população precisa ser mais bem informada de que depressão é uma doença e tem tratamento. Boa parte das vezes, a pessoa se sente mal e não sabe que tem depressão. Se soubesse o nome da doença, talvez procurasse ajuda. E muitas vezes a família não percebe que ela está deprimida”, explicou Rubens Pitliuk ao G1.

O psiquiatra diz ainda que é importante quebrar o medo dos antidepressivos que, em casos de suicídio, são fundamentais. “O remédio é necessário se o paciente tem uma depressão clínica, em que já existem os sintomas físicos – queda de energia, dores no corpo, dores de cabeça, boca seca – ou seja, o organismo inteiro está depressivo. Agora, se você puder juntar o remédio com a ida a uma terapia, é melhor do que só o remédio. Se só puder escolher um, é melhor receitar o antidepressivo”.
Na rede pública, os especialistas recomendam procurar os Centros de Apoio Psicossocial (Caps), onde é possível marcar uma consulta com um profissional. O Centro de Valorização da Vida (CVV) também pode ser uma alternativa. Fundado em 1962 em São Paulo, faz um apoio emocional e preventivo do suicídio pelo número 141.

Mitos sobre o suicídio

“Quem fala, não faz” – Não é verdade. Quem realmente quer se matar não quer “chamar a atenção”, mas apenas dar um último sinal para pedir ajuda. Por isso, os especialistas pedem que um aviso de suicídio seja levado a sério.
“Não se deve perguntar se a pessoa vai se matar” – É importante, caso a pessoa esteja com sintomas da depressão, ter uma conversa para entender o que se passa e ajudar.
“Só os depressivos clássicos se matam” – Não. Pessoas com alta agressividade e impulsividade estão em tanto risco quanto aquelas que ficam em casa deitadas na cama o dia todo. Os médicos, inclusive, pedem para a família ficar atenta ao momento em que um depressivo sem tratamento diz estar bem: muitas vezes ele pode já ter decidido se matar e tem o assunto como resolvido.
“Quando a pessoa tenta uma vez, tenta sempre” – A maior parte dos pacientes que levam a sério o tratamento com medicamentos e terapia não chegam a tentar se matar uma segunda vez. O importante é buscar a ajuda.

Veja.com

Monday, October 3, 2016

Escetamina como tratamento inovador para Depressão


Escetamina como tratamento inovador para Depressão

 O Resgate da Esperança

Revista Veja
Estudos com um novo medicamento contra a depressão severa abrem uma janela para o tratamento de casos da doença com risco iminente de suicídio. Natalia Cuminale

“NÃO TERIA EFEITO a menor diferença se ela tivesse me dado uma passagem para a Europa ou um cruzeiro ao redor do mundo, porque onde quer que eu estivesse – fosse o convés de um navio, um café parisiense ou Bangcoc – estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado.” Assim, linda e tristemente, a poeta americana Sylvia Plath descreveu o sofrimento da depressão no romance A Redoma de Vidro. A obra foi inspirada em um episódio ocorrido no verão 1952, quando ela tentou o suicídio. Com depressão severa, Sylvia atingiria seu derradeiro objetivo onze anos depois, aos 30 anos de idade. Pôs a cabeça dentro de um forno doméstico e ligou o gás, enquanto as crianças dormiam. Agora, pela primeira vez, surge uma esperança concreta de que os suicidas possam ter destinos menos trágicos.

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A FDA, a agência americana que regula medicamentos e alimentos, classificou uma substância chamada escetamina como “terapia inovadora” no tratamento de depressão aguda associada ao suicídio. Há um mês, a fabricante do fármaco, a belga Janssen, divulgou um comunicado em que, literalmente, dizia o seguinte: ”A FDA concedeu designação de terapia inovadora à escetamina, uma medicação antidepressiva em investigação, para a indicação de depressão com risco iminente de suicídio”. Com a aprovação, prevista para 2017, esse pode ser o primeiro remédio a servir de freio à decisão de pôr fim à própria vida.

A escetamina tem uma característica que difere de todas as outras drogas existentes para combate à depressão: age no organismo já a partir de quatro horas. Os antidepressivos atuais só mostram resultados depois de três ou quatro semanas de consumo regular e continuado. A pronta ação de escetamina é que a torna adequada para proteger o suicida de si mesmo. A rapidez com que o composto resgata o depressivo do afogamento psicológico decorre da forma como age no cérebro.

A escetamina regula as taxas cerebrais de um dos neurotransmissores mais importantes no estímulo ao suicídio – o glutamato, que responde pela ação excitatória sobre o cérebro. Na realidade, há uma gama de neurotransmissores que se combinam para criar um ambiente cerebral propício ao suicídio, como os que estão associados à regulação das emoções, do comportamento e do humor. Mas poucos neurotransmissores, até onde a ciência sabe, exercem um papel tão central quanto o glutamato, e é sobre ele que age a escetamina, enquanto os medicamentos disponíveis hoje para a depressão agem sobre ao alvo, no que concerne ao suicídio, a escetamina tem a vantagem da ação rápida.

Uma vez aprovado e disponível ao público, o tratamento com a escetamina deverá consistir na aspiração do composto duas vezes por semana. Um rigoroso estudo do seu funcionamento, apresentado durante o Congresso da Sociedade de Psiquiatria Biológica, em Atlanta, nos Estados Unidos, mostrou que 36% dos pacientes frearam a perspectiva de suicídio quatro horas depois de inalar a substância, e 49% deles experimentaram o mesmo efeito 24 horas depois de inalar a mesma dose. Não há resultado equivalente com outros tratamentos.

A escetamina foi criada a partir de uma substância anestésica utilizada na década de 60 para atender soldados americanos feridos durante a Guerra do Vietnã – a cetamina. O conhecimento sobre seu potencial para combater a depressão, porém, começou a ser amplamente estudado apenas nos últimos cinco anos.


Atualmente, clínicas e universidades ao redor do mundo fazem uso off-label (fora do rótulo, em tradução livre) do composto, na forma injetável. Ou seja, pacientes que não respondem aos tratamentos atuais tornam-se candidatos a se beneficiar das infusões. O médico Ivan, de São Paulo, é um dos profissionais que fazem esse uso. Desde o ano passado, já realizou mais de 200 infusões em seus pacientes. A bancária Eliane Pires, que ilustra esta reportagem, é uma delas. Vítima de depressão, Eliane tentou se matar aos 41 anos, consumindo 100 comprimidos de antidepressivos e ansiolíticos de uma vez. “ A vontade de não querer viver era constante para mim”, diz. “Eu simplesmente queria sumir”. Tais pensamentos desapareceram após o início do tratamento com as infusões de cetamina. A escetamina, no entanto, como spray nasal, tende a ser ainda mais promissora. O paciente com depressão é um dos mais refratários a tratamento, e a facilidade na administração pode facilitar a adesão à terapia.

A cada quarenta segundos uma pessoa se mata no mundo. São 800 000 casos fatais por ano. No Brasil, de acordo com as estatísticas oficiais (com vasta subnotificação, de acordo com os especialistas), 32 homens e mulheres tiram a própria vida diariamente. É uma taxa superior à das vítimas de aids e à das mortes decorrentes da maior parte dos tipos de câncer. Pelo menos a metade dos suicídios, segundo indicam estudos médico-comportamentais, resulta de depressão e nem toda depressão termina em suicídio.


O ato de matar a si mesmo não é consequência, necessariamente, de disfunção química ou transtorno psicológico. Ainda é insondável o atalho que leva alguém ao suicídio, que, como dizia o genial escritor franco-argelino Albert Camus, vem a ser “a única questão filosófica verdadeiramente importante”. Mas a ciência tenta encontrar a explicação. Disse a VEJA o psiquiatra Rodrigo Machado Vieira, diretor da clínica de pesquisa em transtornos do humor do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIH): “ Até dez anos atrás, pouco se conhecia sobre alterações químicas no cérebro de indivíduos com tendência ao suicídio”. De lá para cá, houve avanços, como o uso de antidepressivos para tratar o problema – todos com efeitos lento e indireto, porém. Além disso, o alvo primordial das drogas sempre foi a depressão em si – e não a sua consequência mais dramática.

O paciente com depressão é refratário a tratamentos

Os desafios impostos à medicina para o controle da depressão severa, esse gigante escuro que nos invade, são enormes. Não se sabe, até o momento, a origem biológica do problema. Os mecanismos que fazem com que um pessoa tente dar fim à própria vida são ainda mais complexos e obscuros. Entre os depressivos, o risco de morrer por suicídio é até 25 vezes maior que o da população em geral.

A tendência é resultado de uma interação entre predisposição genética e fatores sociais, culturais e ambientais. Sabe-se, no entanto, que há uma carga biológica de vulnerabilidade ao suicídio, com alterações genéticas e hereditárias. Crianças que passaram por abuso físico ou emocional durante a infância também estão mais propensas ao suicídio na vida adulta. A avaliação do risco é feita por meio de uma série de indicadores indiretos.

O médico investiga se o paciente já tentou suicídio alguma vez (o risco da segunda tentativa é sempre alto), se tem pensamentos e planos suicidas ou se há história de casos na família. Talvez a investigação mais decisiva seja com as pessoas próximas do paciente. Alerta o psiquiatra Humberto Corrêa, presidente da Associação Latino-Americana de Suicidologia e professor titular de psiquiatria da Universidade Federal de Minas Gerais: “ Os suicidas, em sua maioria, verbalizam o desejo de se matar. É um mito a ideia de que quem quer se suicidar não fala sobre isso”. Não há espaço para blefes numa decisão tão profundamente delicada, cujos mistérios ainda pedem investigação.

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14 de Setembro, 2016