Wednesday, November 27, 2013

Depoimentos de pacientes


Depoimentos de pacientes
Cada paciente é único, traz consigo suas histórias, angústias e necessidades. O paciente que chega ao IPAN é recebido por um profissional que dedicará seu tempo a compreendê-lo e oferecer o melhor tratamento possível para o seu momento.

Muitas vezes os pacientes sentem-se sozinhos e desamparados, esta página tem o objetivo de abrir espaço para que nossos pacientes possam compartilhar experiências e ajudar aqueles que buscam ajuda.



Além de todas as dificuldades enfrentadas por pacientes que sofrem de depressão e outros transtornos, quando conversamos com eles percebemos também uma barreira muito problemática: o preconceito. Em alguns dos depoimentos dos pacientes do IPAN podemos ler mais sobre esta dificuldade, clique aqui para ler.

Apesar de já percebermos uma melhora nos últimos anos, ainda há muito preconceito quanto às doenças como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia e outros. Diversas ações devem ser feitas para diminuir o preconceito e conscientizar a sociedade. Cada um pode fazer a sua parte, no site do IPAN temos muitos textos para esclarecer as dúvidas sobre os transtornos e cada um de nós pode disseminar informações corretas. 

A publicação dos depoimentos é autorizada pelos pacientes e suas identidades são preservadas.

Depoimento de paciente em tratamento com medicamentos: 


Meu nome é V. M., tenho 49 anos, sou casada, mãe de dois filhos, uma menina com 25 anos e um menino de 12 anos, resido na cidade de São Caetano do Sul, trabalho na área da Educação, exercendo a função de Assistente em uma Universidade.


Há muitos anos, convivi neste parâmetro terrível, a princípio imaginava que dentro do contexto do dia a dia, o que sentia era reflexo de preocupações, problemas, estress, mas com a persistência dos sintomas, como choro excessivo, tristeza, sensibilidade, sentimento de solidão, vontade de ficar deitada no silêncio e no escuro, irritabilidade, ansiedade, fadiga, cefaléia, impaciência, intolerância, insegurança, consumismo excessivo, era centralizadora, egocêntrica, desequilibrada, neurótica, perfeccionista, briguenta, sem vontade de conversar e com dificuldade de relacionamento com outras pessoas, por mais que tentasse não conseguia me sentir feliz, causando dentro da minha própria família, medo, discussões, distanciamento, um convívio sufocante e triste para todos.


Buscando informações através da internet para entender essa confusão de sentimentos, que me arruinavam a cada dia, pois tudo isso refletia na minha saúde não só mental, mas física também, a cada momento surgia um diagnóstico médico por conta de dores pelo corpo, e com essa variação de humor diariamente, pensei além de depressiva, sou também Bipolar, mesmo sendo evangélica, e pedindo muito para Deus a cura, tinha certeza que precisa de ajuda profissional, não que Deus não seja capaz de curar, mas existem os profissionais guiados por Ele para nos ajudar.


Nunca procurei nem um profissional da área da saúde, como neurologista, psiquiatra, terapeuta, psicólogo, para falar do assunto, quando de repente uma pessoa comentou sobre o IPAN, pesquisei através do site, lí todas as informações que ali constam, através dos depoimentos, currículos dos profissionais, sempre reconheci que precisava de ajuda, mas que não seria em qualquer lugar e com qualquer profissional, pois eu tinha a convicção que eu não queria um tratamento que mascarasse o problema, não queria viver dopada, mas que tratasse o foco que está gerando todas essas reações, conversei com meu esposo que me deu total apoio, pois sabia o quanto isso estava refletindo na minha vida em particular e em nossa família.


Cheguei ao IPAN em setembro/13, a Drª Marina, me recebeu, muito receptiva e simpática, acolhedora, me ouviu, me ajudou a expor os meus sentimentos, explicou o que estava acontecendo e diagnosticou realmente uma depressão, gerada por um histórico de vida e situações ao decorrer de vários anos, além das orientações, fui medicada e retornei agora, nov/13, após 2 meses de tratamento, totalmente diferente, posso dizer que hoje sou outra pessoa, a medicação não causou nenhuma reação contrária, foi de efeito rápido, é necessário continuar com o tratamento, pois cada pessoa tem um diagnóstico e um tempo para ser tratada, isso não me preocupa, o meu bem estar faz com que hoje eu consiga discernir o que é prioridade e necessidade, ser coerente para tomar decisões e resolver situações, não tenho mais aquele kit terror de sentimentos e reações, até o meu tom de voz, permite o equilíbrio de falar sem exaltação, dizem que o corpo fala, o meu me diz que está ótimo, meus filhos e meu marido dizem que não me reconhecem, que estão felizes, e eu posso declarar que estou de bem com a vida, até eu me desconheço.


O meu desejo é que pessoas possam ler meu depoimento, se fortalecerem através da coragem, atitude, da busca pela própria vida, gerando a saúde não só a si própria como prioridade, mas também as outras pessoas que vivem ao seu redor.


Não deixe que o preconceito em relação a profissionais da área como a Drª Marina e sua equipe, que através de estudos e descobertas a nosso favor, nos colocam a disposição o privilégio de conhecer o IPAN, e principalmente de nos ajudar a resgatar e fazer renascer o ser humano que Deus criou, com o propósito de sermos plenamente felizes.


A todas as pessoas que encontraram no IPAN e na amizade da equipe, mais um motivo para a sua existência.

Monday, November 11, 2013

A vergonha dos antidepressivos. Por Juliana Doretto


 Nem todos os que tomam esses remédios querem viver sem sofrimento: o que não querem é o sofrimento sem vida.  Lisboa

Todos os dias, de manhã, depois do café, eu procuro uma cartela prateada que fica em cima de meu criado-mudo. Religiosamente, tomo um comprimido. É um antidepressivo. Não tenho vergonha. Estou em tratamento, acompanhada por médico e psicólogo. Não sou mais fraca do que ninguém por ter ingerir a pílula. Não quero tomá-lo para sempre, mas não quero abandoná-lo apenas para provar a alguém que dou conta de tudo. Porque eu não dou. 

Em dois meses, meu (ex-)marido me pediu o divórcio de maneira repentina e perdi meu avô, que morreu em casa, após ter ficado gravemente doente durante meses. Dois acontecimentos muito intensos, em período curto de tempo. Procurei ajuda na terapia. Cheguei a ter sessões duas vezes por semana. Um dia, achando que já estava melhor, quis ficar sozinha em casa. Chorei por horas seguidas, passando a noite em claro. Era um desespero sem fim. Dificuldades para respirar. Mãos tremendo. De manhã, me arrumei e fui sozinha ao pronto-socorro. Não sei como cheguei lá. Precisava me acalmar, nem que fosse de modo artificial, com a ajuda de remédios. Nesse dia, percebi, com o auxílio também da terapia, que necessitava mais do que conversa. 

Eu estava doente. Mentalmente doente. Houve um desequilíbrio aterrorizador, que me tirou do prumo, que provocou uma queda abissal. Além da crise que me levou ao pronto-socorro, emagrecia continuamente e não tinha poder nenhum de concentração. Escolhi o psiquiatra pelo currículo: procurei alguém com boa formação acadêmica e experiência clínica, mas também pesquisador. Fui orientada a tomar um antidepressivo, com dosagem mínima, e a reforçar os exercícios físicos, além de continuar com a terapia. Faço tudo isso, há quase um ano. 

Mas a pílula não me fez parar de sofrer. Chorei muito pela tristeza das perdas, pelo desprezo que senti, pelas mudanças grandes que me assolaram. Passei por períodos de angústia, nervosismo, pensamentos confusos. Houve dias em que não tive vontade de sair de casa, e não saí. Ainda passo por tudo isso, mas em “dosagens” cada vez menores. Voltei a ter mais controle sobre minha vida: tenho rotina de trabalho novamente, pude me mudar para Lisboa (por conta do doutorado), consigo ficar sozinha, lido melhor com a tristeza que ainda vem. 

Há pessoas que procuram antidepressivos para tentar evitar a dor, e há médicos que indicam esses medicamentos de modo desnecessário? Certamente, pelo que lemos na imprensa. Mas nem todos os que tomam esses remédios estão fugindo do sofrimento. Eles querem escapar da sensação da falta de ar, do coração acelerado, do choro que não passa nunca, do medo sem motivo que vira companheiro de vida. São pessoas que não querem viver sem sofrimento: o que não querem é o sofrimento sem vida. 

Escrevi este texto porque ouço com certa frequência a pergunta: “Ainda toma remédio?”. E, algumas vezes, a questão vem acompanhada de sugestões: “Mas por que você não faz mais exercício, para parar com isso?”. “Já tentou ficar sem tomar?”. “Isso não é mania do médico, não?”. Bombardeada com perguntas assim e me sentindo mais inteira, pedi a meu psiquiatra que tentássemos reduzir o remédio. Ele acatou minha decisão, de forma experimental. Foram dias horríveis... 

Eu ainda não estou pronta. Mas estou no caminho. O medicamento me ajuda nisso, assim como a terapia, os exercícios, a família, os amigos, a música, o trabalho, o amor... E também este texto, e todos os outros que venho escrevendo neste espaço. E, por isso, agradeço a sua leitura. 

perfil Juliana Doretto - blog da Ruth (Foto: ÉPOCA)