Monday, September 30, 2013

No astral do Rivotril


Indicado para tratar síndrome do pânico e fobias, o medicamento de tarja preta é adotado por cariocas como panaceia para as tensões do dia a dia

por Sofia Cerqueira | 
Divulgação


Em meio à cacofonia de mensagens em que se transformou o Facebook durante os protestos que agitaram a cidade em julho, a ex-modelo Márcia Couto conseguiu se destacar em seu grupo de amigos. Durante uma noite particularmente conturbada por bombas de efeito moral, quebra-quebra e sirenes ligadas no bairro onde mora, o Leblon, ela saiu da cantilena político-indignada dos conhecidos que estavam on-line e tascou: "Gente, preciso de um Rivotril". Imediatamente, sua intervenção foi acolhida por uma enxurrada de comentários como "Eu também, eu também, vou tomar um, dois, três...". Embora quase todas as menções fossem em tom de galhofa, o episódio é uma pequena amostra de como esse medicamento criado há quatro décadas para tratar a epilepsia se tornou popular entre os cariocas. De acordo com dados de mercado, trata-se do calmante mais consumido no Rio, à frente de drogas para impotência sexual e hipertensão. Transformado em uma espécie de panaceia para as mais variadas aflições, é usado para dissipar o nervosismo em entrevistas de emprego, estancar a inquietação ante uma festa, aplacar a frustração de um rompimento amoroso ou eliminar o tormento da insônia. Márcia, por exemplo, sempre carrega uma cartela na bolsa para o caso de aparecer "uma tensão" no dia a dia. Nem mesmo a tarja preta na embalagem, sinal de que ali dentro existe uma substância que demanda cuidados especiais, arrefece o ânimo dos usuários. "Para muita gente funciona como se fosse o velho copinho de água com açúcar, o que evidentemente é um exagero", compara a médica Fátima Vasconcellos, presidente da Associação Psiquiátrica do Estado e chefe de clínica do Serviço de Psiquiatra da Santa Casa.

Felipe Fittipaldi



Chamado de "pílula da felicidade", "comprimido do relax" ou "gotinha da paz" em sua versão líquida, o Rivotril desfruta uma aura pop incomum para um medicamento. A fama é tanta que há uma série de piadas de gosto duvidoso em torno do produto — entre elas "Eu rivo sim, eu tô rivendo, tem gente que não rive e está morrendo" e "Rivotril, Rivotril meu, existe alguém mais calma do que eu?". Apenas na internet, há mais de oitenta páginas espalhadas pelas redes sociais fazendo alusão ao uso do remédio ou estampando o seu nome. Boa parte dessa popularidade vem dos efeitos do Rivotril, que desacelera o sistema nervoso central, nocauteando um grupo de neurotransmissores e reduzindo as respostas aos estímulos externos. Como resultado, induz a um relaxamento muscular, a uma sensação de tranquilidade, chegando à sedação leve, no caso de doses mais altas. Quem toma explica que o efeito é parecido com o do consumo de uma ou duas doses de álcool, mas mantendo a clareza dos pensamentos e uma impressão de calma e paz. Com tais atributos, transformou-se em um ícone dos balcões de farmácia e uma espécie de senha entre iniciados para se referir a situações-limite de stress e ansiedade. "Outro dia, antes de começar um debate no programa Na Moral, uma autoridade soltou sem cerimônia, fora do ar: ‘Só com Rivotril para aguentar’", recorda o jornalista e apresentador Pedro Bial. Ele não entrega o nome do entrevistado, mas não vê problemas em contar que tomou o comprimido por sete anos. "Usava sempre para dormir e, durante o dia, nos momentos mais críticos."

Felipe Fittipaldi


Tamanha popularidade não deixa de ser um paradoxo, principalmente por se tratar de uma droga de venda controlada, daquelas que requerem receituário especial com registro do nome do consumidor. Por exigência da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), medicamentos dessa categoria não podem ter sua imagem veiculada nem ser alvo de promoções voltadas para o público leigo. Dois fatores, no entanto, explicam a penetração do Rivotril. O primeiro é o custo. Considerado uma droga antiga, ele tem preço imbatível: com 5 reais compra-se a tranquilidade artificial em uma caixa de trinta comprimidos. Outro motivo que ajuda a explicar o sucesso do remédio é a forma indiscriminada de sua prescrição. Tornou-se comum o paciente chegar a um consultório com gastrite, enxaqueca, tensão menstrual, pressão alta, bruxismo ou qualquer outra queixa que tenha a mais leve relação com ansiedade e sair de lá com uma receita. Até dentistas o recomendam. Isso quando a indicação não vem de um parente ou colega de trabalho, conseguindo-se depois a autori­zação oficial com um médico amigo. "Acontece também de uma pessoa chegar com uma queixa, no meio de uma consulta, e dizer que outro profissional indicou o Rivotril. É uma maneira de sugerir que você também o faça", relata Marco Oliveira Py, presidente da Associação de Neurologia do Estado do Rio.

Tomás Rangel


É inegável que uma droga tão bem-sucedida traz benefícios às pessoas que a consomem. A questão central, evidentemente, não é o remédio. O problema aparece quando, sem o monitoramento adequado, ele se transforma em muleta diante da mais prosaica das adversidades. Assim como outros vícios, no início tudo fica uma maravilha. Só se veem a parte boa e os prazeres que o medicamento proporciona. Mas especialistas (e mesmo sua bula) afirmam que o Rivotril tem potencial para causar dependência depois de três meses de uso contínuo. Em comparação com outros tranquilizantes, seus efeitos colaterais são considerados menores, mas existem e precisam ser levados a sério. Ele pode dar sonolência, reduzir a concentração e até causar danos à memória. Uma crise de abstinência, por exemplo, pode virar um pesadelo. Algumas pessoas chegam a ser internadas para que o processo de interrupção do uso seja feito de forma gradativa. É comum que, no tratamento, a ansiedade se torne insuportável e venha associada a tremores, sudorese, taquicardia e mesmo convulsões. É uma experiência que a estudante de psicologia Maria Leal Velloso, de 32 anos, quer esquecer. "De uma ho­ra para outra fiquei fora de mim", conta ela, que interrompeu abruptamente a ingestão do medicamento. "As pessoas não se dão conta, mas ele pode viciar da mesma forma que o álcool e as drogas ilícitas", afirma a psiquiatra Analice Gigliotti, chefe do departamento de dependentes químicos da Santa Casa.

Felipe Fittipaldi


Assim como outras drogas que surgiram para combater um determinado mal, o Rivotril ao longo dos anos passou a ter várias utilidades. Lançado no mercado nacional em 1973 como anticonvulsivante, o produto, da classe dos benzodiazepínicos, foi alçado à condição de tranquilizante pelos inúmeros benefícios que apresentava em relação a outros medicamentos anteriormente usados para esse fim, os barbitúricos. Deveria ser indicado, sobretudo, para transtornos como síndrome do pânico e fobias em geral. Seu público-alvo, po­rém, é muito mais extenso. Com o ritmo de vida acelerado e a contínua exposição a pressões (sejam pessoais, sejam profissionais), um em cada três moradores de regiões metropolitanas apresenta distúrbios decorrentes da ansiedade. Os problemas com o sono também são muito frequentes: estima-se que atinjam de 15% a 27% da população adulta. Não à toa, suas vendas, somadas às das versões genéricas comercializadas sob o nome de Clonazepam, crescem ao ritmo de 15% ao ano. "Prescrito de forma correta e por um tempo adequado, o remédio é muito seguro e eficaz", defende o psiquiatra Antonio Egidio Nardi, professor titular da Faculdade de Medicina da UFRJ e uma das maiores autoridades em transtornos de ansiedade no país. "Mas não dá para usar um medicamento como válvula de escape e compensação aos dissabores do cotidiano", completa.

Felipe Fittipaldi


Ao contrário de produtos destinados ao tratamento de disfunção erétil, calvície ou acne, o Rivotril não se enquadra naquilo que os americanos chamam de lifestyle drug, ou "droga de estilo de vida". Está longe de ser de uso recreativo e implica um diagnóstico criterioso e sérios cuidados em sua administração. Como os médicos conscientes reforçam, o Rivotril de forma alguma deve ser visto como um paliativo para tensões cotidianas banais, como ir a um evento social ou falar em público. Nesse sentido, usar esse medicamento como pílulas ou gotinhas inócuas não é apenas um caso grave de ingenuidade. Trata-se da mais pura irresponsabilidade.

Felipe Fittipaldi


Felipe Fittipaldi

Friday, September 6, 2013

PSICOFOBIA É CRIME


Psiquiatras reclamam de tratamento com eletrochoque em Paloma de "Amor à Vida

06/09/2013 - 18h43

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) divulgou nesta sexta-feira (6) uma nota de esclarecimento voltada à Globo.
DE SÃO PAULO
No documento, a associação reclama da forma como a novela "Amor à Vida" está retratando o tratamento psiquiátrico da protagonista Paloma (Paolla Oliveira).
"A condução do tratamento psiquiátrico dado à personagem não corresponde à realidade", diz o texto, que chama atenção para a terapia de eletrochoque à qual a personagem será submetida nos próximos capítulos.
Segundo a entidade, o tratamento de eletrochoque "é um procedimento seguro, eficaz e indolor" e só tem indicação para pacientes que não tiveram resultados satisfatórios com a medicação.
A associação reclama ainda que a psiquiatra da novela deu um diagnóstico baseado em "achismo" e que o folhetim pode reforçar a "psicofobia" da sociedade, descrita como um preconceito contra portadores de transtornos e deficiências mentais.
Por fim, a entidade se coloca à disposição da emissora para consultoria e para "que não venha a ferir o ofício do médico psiquiatra nem desrespeitar os 46 milhões de pacientes psiquiátricos do Brasil".

Tuesday, September 3, 2013

"Nova Abordagem para a depressão", The New York Times


"Nova Abordagem para a depressão", The New York Times

 Artigo publicado no The New York Times

Por Roni Caryn Rabin

Foto com Dr. Alan Manevitz e sua assistente, Joanna Robben, durante uma sessão de EMT.

Martha Rhodes teve a primeira crise de depressão aos 13 anos de idade. Por volta dos 50 anos, ela tinha tomado quase todos os antidepressivos existentes, incluindo Zoloft, Lexapro, Paxil, Effexor, Lamictal, Seroquel e Abilify. Alguns funcionavam por um tempo, e, a maioria, tinha efeitos colaterais.

Depois de uma tentativa de suicídio em 2009, ela tentou algo radicalmente diferente: a estimulação magnética transcraniana (EMT), ou do inglêsTranscranial Magnetic Stimulation (TMS). É um tratamento que utiliza pulsos magnéticos para estimular regiões do cérebro envolvidas na regulação do humor. Ao contrário da eletroconvulsoterapia (ECT) ou eletrochoque, que também é usado para tratar a depressão, a EMT não gera convulsão.

O tratamento durou 6 semanas e pouco mais de meia hora por dia. Eu ficava sentada em uma cadeira com um ímã afixado no lado esquerdo da minha cabeça. Após quatro semanas, "Eu acordei e havia algo diferente", disse a Sra. Rhodes, que escreveu um livro, "3000 Pulsos Later" descrevendo o tratamento. "Eu me senti mais leve. Eu acordei pela manhã e não queria mais morrer. "

Para a Sra. Rhodes, de 63 anos, uma ex-publicitária de alto escalão em Danbury, Connecticut, tratamento com EMT foi transformador, e ela não precisa mais de antidepressivos. Mas há ainda muitas perguntas sobre quantos pacientes respondem a EMT, são necessárias sessões diárias durante várias semanas, com custo elevado e muitas vezes não é coberto pelo plano de saúde.

O tratamento é realizado no consultório, o paciente fica sentado em uma poltrona com um grande ímã posicionado no lado esquerdo da cabeça. A ideia é que o campo magnético pulsátil, semelhante ao utilizado em RNM, cria uma corrente elétrica na superfície do cérebro restabelecendo o humor do paciente.

Nos EUA, a EMT é aprovada especificamente para pacientes com depressão refratária ou que não toleram os efeitos colaterais dos medicamentos, tais como ganho de peso e perda da libido. Muitos desses pacientes estão desesperados por tratamentos alternativos, mas não é certo que a EMT possa melhorar.

"Embora já esteja bastante claro que a EMT é eficaz em uma porcentagem de pacientes com depressão, ainda não é muito fácil predizer quais são os pacientes que melhoram", disse Dr. Steven J. Zalcman, o diretor clínico da agência de pesquisa em neurociência do Instituto Nacional de Saúde Mental.

Diretrizes práticas da Associação Psiquiátrica Americana (no inglês American Psychiatric Association - APA) sugerem que a EMT confere "de pequeno a moderado benefício", e que os resultados dos ensaios clínicos são misturados. "O copo está meio cheio ou meio vazio, depende de onde você está vindo", disse Dr. Mark S. George, um professor da Universidade de Medicina da Carolina do Sul, em Charleston.

Dr. George foi pesquisador no primeiro ensaio clínico randomizado com EMTr para tratar depressão resistente. O estudo descobriu que quase três vezes mais pacientes entraram em remissão após o tratamento EMTr verdadeira, em comparação com aqueles que receberam EMTr placebo. Mas o número foi pequeno: apenas 14 % dos pacientes tratados obtiveram remissão, enquanto 5% no grupo placebo.

Uma nova modalidade de tratamento, a EMT profunda, desenvolvida pela empresa israelense Brainsway e aprovada pelo Food and Drug Administration (FDA) deste ano, trouxe uma maior taxa de resposta em um ensaio clínico randomizado: 30% dos 233 pacientes obtiveram remissão, enquanto que 14,5% do grupo placebo.

Os pesquisadores da Braisnway alegam que o dispositivo tem como alvo regiões mais profundas do cérebro, como o núcleo accumbens, que desempenha um papel fundamental no circuito de recompensa do cérebro.

Segundo especialistas e o que parece mais próximo da realidade, os estudos que associaram antidepressivos com EMT, apresentaram taxas de resposta significativamente maiores do que no ensaio clínico conduzido pelo Dr. George. Um estudo recente e inédito, financiado por fabricantes de equipamentos, acompanharam os pacientes por um ano e encontraram um efeito duradouro, em cerca de metade dos pacientes que mantiveram melhora por 12 meses.

A vantagem da EMT é por não ser um tratamento invasivo e , ao contrário das medicações, parece ter poucos efeitos colaterais, apenas desconforto ou dor leve no no local do tratamento, ou dores de cabeça ocasional. No entanto, poucos pacientes abandonam o tratamento por causa da dor.

Efeitos a longo prazo não são conhecidos, mas a EMT não afeta a memória e a cognição, como eletroconvulsoterapia (ECT). Em casos raros, pode causar convulsões.

Em uma demonstração de uma sessão EMT no consultório do Dr. Alan Manevitz em Manhattan, a paciente, uma mulher de 55 anos que pediu para não ser identificada para preservar sua privacidade, se sentou em uma cadeira, enquanto um pequeno ímã era colocado sobre sobre o córtex pré-frontal do cérebro e apoiado por um braço mecânico.

Não houve anestesia ou sedação. O paciente podia ler ou assistir TV, mas não adormecer. Cochilar parece improvável, uma vez que o tratamento faz um som rat-a -tat estridente como se fosse um pica-pau, durante quatro segundos, seguidos por 26 segundos de silêncio antes de continuar. A sessão diária dura cerca de 37 minutos.

A paciente, recebeu o tratamento completo de EMT e agora está fazendo tratamento de manutenção, pois ela apresentou remissão do quadro depressivo grave e de longa data.
"Eu nem percebi que eu escorreguei ", disse ela . " Eu gostaria de ter feito isso há muito tempo . "

Uma versão deste artigo foi publicada na imprensa em 07/02/2013, na página D6 da edição de Nova Iorque, com a manchete: Nova Abordagem para a depressão.




 

Confira a notícia no The New York Times