Friday, May 3, 2013

Ondas magnéticas contra a dependência



Ondas magnéticas contra a dependência
Dr. Moacyr Rosa, diretor do IPAN, é entrevistado pela revista Saúde É Vital sobre o uso da estimulação magnética para o tratamento da dependência química.

Ondas magnéticas contra a dependência. Terapia já consagrada no controle da depressão é testada contra o vício em cocaína pela primeira vez no Brasil. E os resultados são animadores. 

    O físico britânico Michael Faraday (1791-1867) foi um dos homens mais influentes da história da ciência. Seus trabalhos sobre eletromagnetismo se tornaram o ponto de partida de muitas das tecnologias que usamos hoje.  As telecomunicações, a distribuição de energia nas metrópoles, os meios de transporte e os motores elétricos se originaram com base nos estudos de Faraday, que desvendaram as interações entre as correntes elétricas e os campos magnéticos.

    Cerca de dois séculos depois desses avanços vitais para a sociedade contemporânea, os achados do cientista ainda reverberam pelo mundo acadêmico, especialmente na medicina. Uma de suas aplicações mais recentes é a estimulação magnética transcraniana, a EMT, terapia não invasiva que trata diversas doenças no cérebro. O método, desenvolvido em 1985 pelo médico inglês Anthony Baker, na universidade de Sheffield, na Grã-Bretanha, se vale da aplicação de ondas magnéticas em pontos específicos da massa cinzenta para conter males que vão de depressão a alucinações auditivas .

    Agora uma investigação  pioneira do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas de São Paulo foi além: testou a EMT em dependentes de cocaína. A pesquisa, finalista do prêmio SAÚDE 2012, teve resultados impressionantes. “Nós conseguimos diminuir a fissura pela droga e melhorar sintomas de depressão e ansiedade em 80% dos voluntários, enquanto 60% deles reduziram o consumo”, conta o psiquiatra Philip Leite Ribeiro, autor do trabalho e pesquisador do IPq.

    Para ter uma ideia da conquista, basta considerar que outras formas de tratamento desse vício são capazes de refrear o uso, no máximo, em 25% dos pacientes. “Até então, não existia remédio específico para a cocaína além das intervenções psicossociais, que também têm a sua eficácia”, frisa o psiquiatra Marco Antonio Marcolin, coordenador do serviço de Estimulação MagnéticaTranscraniana do Hospital das Clínicas de São Paulo.

    Para realizar o estudo, a equipe do Instituto de Psiquiatria recrutou 25 voluntários, que foram divididos em dois grupos. O Primeiro foi alvo da estimulação magnética transcraniana, enquanto a segunda turma passou por uma terapia placebo, ou seja, de mentira. Nem os pacientes, muito menos os médicos, sabiam quem efetivamente tinha feito o tratamento correto e quem estava selecionado para o teste falso. As sessões aconteciam diariamente e demoravam menos de 15 minutos. Os indivíduos receberam as ondas magnéticas na cabeça durante um mês e foram acompanhados por mais 60 dias. “Além da análise comportamental, todos os pacientes faziam exames de urina para controlar o uso da droga”, informa MarcolinEssasaveriguações tornaram a pesquisa ainda mais criteriosa. “Ninguém nunca fez isso em todo o mundo. É uma comprovação científica plena dos resultados”, reforça o psiquiatra.

    A pesquisa brasileira apontou uma queda do consumo da cocaína entre a terceira e a sexta semana depois do início das sessões. “Talvez essa seja uma janela de oportunidade para disponibilizar ao paciente um arsenal de recursos, como terapias psicossociais, cognitivas e comportamentais”, especula Leite Ribeiro. Os especialistas começam, neste momento, a planejar uma segunda investigação, com dependentes de crack – embora ainda estejam ás voltas com o problema de falta de verba para a internação dos voluntários.

Do Laboratório para a Clínica


    A EMT é praticamente indolor e não dá choques. A Máquina utilizada, conhecida como estimulador magnético, solta uns cliques quando emite as ondas para o cérebro. Pacientes que passaram pela terapia contam que o incômodo é mínimo, como se alguém tocasse rapidamente com o dedo uma região específica do crânio. “Algumas pessoas podem sentir uma leve dor de cabeça logo após a aplicação”, adverte o psiquiatra Rafael Boechat, professor da faculdade de medicina da Universidade de Brasília, no Distrito Federal. Para esses  casos de cefaleia, um analgésico simples resolve.

    No Brasil, por enquanto, o método está aprovado para uso clínico apenas no combate á depressão e ás alucinações auditivas típicas da esquizofrenia. Nos quadros depressivos, testes feitos ao redor do globo asseguram sua eficácia: em 40% dos casos, todos os sintomas desaparecem. “A EMT funciona por meio da variação de pulsos magnéticos, que podem ter o efeito de inibir ou estimular determinadas regiões do cérebro”, explica o psiquiatra Moacyr Alexandro Rosa, diretor do Instituto de Pesquisas Avançadas em Neuroestimulação, na capital paulista.


    Apesar do emprego restrito atual, diversos experimentos indicam que em breve o aparelho beneficiará quem sofre de problemas como enxaqueca, Parkinson, zumbido, sequelas de um acidente vascular cerebral e dores crônicas. Ele pode ser efetivo até mesmo contra distúrbios comuns na infância, como dislexia, autismo e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

    Mas tome cuidado para não cair em armadilhas. Fora do ambiente de pesquisa, não é permitido lançar mão da EMT para essas doenças. E mais: o Conselho Federal de Medicina decretou no final do ano Passado que só médicos estão autorizados a aplicá-la. “Sempre quepossível, peça o registro do profissional e pesquise no site dos conselhos regionais para verificar se ele está apto a realizar o procedimento”, sugere a neurologista Adriana Bastos Conforto, professora do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina de São Paulo.

    Como você pode ver, a psiquiatria dispõe de técnicas cada vez mais avançadas para garantir uma massa cinzenta livre de  encrencas – encrencas essas capazes de determinar o raciocínio inclusive de cérebros geniais como o homem que descobriu o funcionamento das ondas magnéticas. Michael Faraday, quem diria, morreu em sua casa, vítima de colapsos mentais.

Confira a matéria completa na revista Saúde É Vital, edição de abril de 2013.

por André Biernath

http://saude.abril.com.br/edicoes/