Tuesday, October 16, 2012

Transtorno bipolar


Pacientes com transtorno bipolar levam até dez anos para receber o diagnóstico
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Ingrid Tavares
Do UOL, em São Paulo
http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2012/10/11/transtorno-bipolar-pode-demorar-dez-anos-para-ser-diagnosticado.htm
A Associação Brasileira de Psiquiatria lança nesta semana uma campanha pública no Brasil para alertar sobre um quadro que afeta até 8% da população mundial e é uma causa importante de suicídio. O transtorno bipolar é uma das doenças mentais que mais causa sofrimento aos portadores, principalmente aqueles que ainda não sabem ter o problema.
Alterações bioquímicas e moleculares nos neurotransmissores, em especial na produção da serotonina (substância que ajuda a manter a harmonia e a comunicação dentro do cérebro), fazem o paciente alternar períodos de mania (caracterizado por agitação, ritmo acelerado, impulsividade e compulsão) com depressão (sensação de vazio, cansaço prolongado, retração e alguma ansiedade).
Assim, a pessoa eufórica torna-se apática de uma semana para outra. Segundo os psiquiatras, essa oscilação de ritmo e humor na cabeça – e no dia a dia – da pessoa leva cerca de 25% dos pacientes a tentarem se matar ao menos uma vez na vida – desses, 4% chegam a cometer o suicídio, de fato. Entre os que estão em tratamento, o número de tentativas cai para menos da metade, afetando 10% dos portadores.

Veja famosos que enfrentaram distúrbios mentais

Foto 4 de 24 - O ator Jean-Claude Van Damme revelou este ano que estava em tratamento para o transtorno bipolar. Segundo ele, depois que tornou público o problema, a comoção do público e das pessoas ao seu redor o ajudam no processo Getty Images

PRINCIPAIS SINTOMAS

Sentimento de êxtase e euforia;
Irritação e agitação;
Hostilidade e arogância
Pensamentos e falas rápidas;
Distrair-se facilmente;
Desejo de envolver-se em vários projetos ao mesmo tempo;
Insônia ou pouca necessidade de sono;
Comportamento impulsivo;
Julgamento prejudicado;
Agressividade e hostilidade;
Sensação de vazio;
Profunda tristeza e desânimo;
Perda de interesse em atividades antes tidas como prazerosas
Mudanças nos hábitos alimentares
O problema, diz a associação, é que o número de pessoas que tratam o transtorno ainda é baixo no país, muito devido à dificuldade de um diagnóstico preciso pelos médicos. Como ele é confundido com os sinais de outras doenças, a “descoberta” pode tardar até dez anos.
“A própria questão da doença, que se apresenta primeiro só como depressão, cria uma dificuldade de ler os sintomas”, explica a psiquiatra Ângela Scippa, presidente da Associação Brasileira de Transtorno Bipolar. "A virada [para a fase da mania] pode levar anos para acontecer, atrasando o diagnóstico em até dez anos. Com isso, acredita-se que 60% dos indivíduos atualmente estão diagnosticados errados."
Segundo a professora da UFBA (Universidade Federal da Bahia), a doença mental ocorre em qualquer idade, mas se manifesta com mais frequência entre o fim da adolescência e o começo da vida adulta.
A fase da mania, diz ela, persiste por sete dias, no mínimo, fazendo a pessoa ter um comportamento impulsivo durante todo o tempo. Já o período de depressão, que vem em seguida, dura pelo menos 15 dias. “Tristeza e alegria são expressões naturais das pessoas, todo mundo passa por boas e más fases na vida. Mas os sintomas do transtorno são intensos e disfuncionais”, ressalta.
O tratamento, que alia terapia com psicotrópicos, deve ser contínuo para que haja um controle efetivo da doença crônica, do mesmo modo do que já é feito “por quem tem diabetes, pressão alta e problemas cardíacos”.  Quem interrompe o tratamento, diante da melhora, mais cedo ou mais tarde vai voltar a encarar a alternância brusca de humor, já que a taxa de recorrência é de 90%.
Campanha
Apesar de a ocorrência da síndrome bipolar ser equivalente entre os sexos, em geral as mulheres buscam mais tratamento do que os homens. Segundo a presidente da Associação Brasileira de Transtorno Bipolar, elas se queixam mais de dores físicas, como cólicas mensais, e acabam indo mais ao médico clínico, que funciona como um funil até o psiquiatra.
Os homens, além de serem mais resistente na hora de pedir ajuda, costumam abusar mais de álcool e drogas e acabam sendo “tratados” em clínicas de reabilitação, como se os sintomas do transtorno viessem do abuso de substâncias, e não da disfunção cerebral.

TIPOS DE BIPOLARIDADE

Bipolar tipo 1A forma mais intensa e conhecida do transtorno traz clara alteração do humor, com fases de plena mania alternadas com períodos de depressão profunda
Bipolar tipo 2O paciente nunca tem episódios maníacos completos e tão intensos quanto os do tipo 1. Ele enfrenta períodos de níveis elevados de energia e impulsividade, chamados de hipomania, e momentos de depressão
CiclotimiaA forma mais leve da síndrome bipolar não tem fases bem marcadas. O paciente, no entanto, tem um humor oscilante e desregulado, com alguns sintomas depressivos - por isso, grande parte dos portadores da ciclotimia são tratados apenas como depressivos
Para tentar reverter o quadro de baixo e ainda impreciso diagnóstico, a Associação Brasileira de Psiquiatria tenta enfrentar o problema por várias frentes. Além de ajudar o psiquiatra, com o programa de educação continuada, a distribuição de cartilhas e material educativo atinge diretamente a família e o paciente. A idéia é combater um dos maiores desafios que cerca as doenças mentais: o preconceito da sociedade.
“Quando uma tia tem um problema cardiovascular, todo mundo fica sabendo, liga um para outro, vai visitá-la. Mas quando há uma doença mental, cria-se um silêncio na família e evita-se pedir ajuda. As pessoas têm muita resistência de procurar um profissional para obter o diagnóstico [do transtorno bipolar]. Elas ainda acham que quem procura um psiquiatra é louco.”
Para Ângela, ainda há a dificuldade do acesso da população carente à assistência psiquiátrica e aos leitos adequados em hospitais.
“Eles não podem comprar muito dos medicamentos, que são muito caros. O Ministério da Saúde libera antipsicóticos pelo SUS, mas apenas para pacientes de esquizofrenia, apesar de servir também para quem tem o transtorno bipolar. A população carente não recebe o que é ideal, mas o que é disponível. E isso não é tratamento, é redução de danos”, finaliza a psiquiatra.

Monday, October 15, 2012

Psiquiatras e profissionais de saúde falam sobre comportamento suicída


Psiquiatras e profissionais de saúde falam sobre comportamento suicida

 
No terceiro dia de atividades do XXX Congresso Brasileiro de Psiquiatria, cerca de 300 pessoas lotaram o auditório Genipabu para conferir a sessão “Como eu trato pacientes com ideação suicida”, comandada pelo professor titular de Psiquiatria da Universidade Federal de Minas Gerais, pesquisador do CNPq, chefe do Departamento de Saúde Mental da FM-UFMG e membro do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Medicina Molecular, Humberto Corrêa da Silva Filho.
A apresentação começou com uma abordagem histórica e cultural do suicídio. “O suicídio sempre existiu, desde que o homem é homem, nas mais variadas culturas, mas com terminologias diferentes”, afirmou. Segundo o professor, o que muda muito é a forma como o suicídio é encarado por cada cultura. “Algumas vão apoiar, outras vão incentivar e outras vão reprimir o suicídio”.
Na cultura cristã ocidental, nos primeiros séculos da era cristã, o suicídio era visto de forma neutra e até incentivado em algumas ocasiões. Essa percepção mudou no século IV, com Santo Agostinho. Ele recriminou o suicida ao escrever que “aqueles que se matam são covardes incapazes de enfrentar seus testes. É sua vaidade que os induz a dar importância ao que os outros pensam dele. Nenhuma circunstância desculpa o suicídio, nem mesmo o estupro. Se a alma de Lucrécia permaneceu inocente, ela não tinha razão para se matar”.
Tabu
Estudo revela que, em 2009, nos Estados Unidos, 37 mil pessoas suicidaram. O grande número de casos, segundo o professor, não é acompanhado de investimento em pesquisa para desvendar as causas do problema. “Ainda varremos o assunto para debaixo do tapete. Ele é tratado como tabu”, afirmou.
Em outros países, há algum investimento em propaganda. O professor citou o exemplo da Austrália, que chegou a confeccionar cartazes para alertar para a alta taxa de suicídio entre os homens – na época, cinco registros por dia.
Abordagem psiquiátrica
A literatura traz diferentes explicações sobre suicídio. Para uns, o ato seria decorrente de uma doença mental. Outros determinam o suicídio como consequência de uma causa social, não sendo um fenômeno individual, mas coletivo.
Em termos conceitual, o suicídio é hoje definido em três dimensões: o pensamento (pensamentos de suicídio e planos de realização), a tentativa (quando se deve avaliar a letalidade, o tipo, a intenção e número de tentativas) e o suicídio, que é todo ato executado pelo próprio indivíduo, cuja intenção seja a sua morte, usando um meio que acredita resultar no fim da sua vida.
Um estudo internacional – chamado Supre-Miss – procurou avaliar a prevalência dessas dimensões. Para o Brasil, o resultado obtido mostrou que, de cada 100 habitantes, 17 tem pensamentos suicidas, cinco tem planos, três tentam e um é atendido em pronto-socorro.
Vários transtornos psiquiátricos estão relacionados ao comportamento suicida. “Praticamente 100% dos suicidas têm transtorno psiquiátrico”, afirmou o professor. Entre os diagnósticos mais comuns estão os transtornos de humor (depressão e bipolaridade), transtornos de abuso de substâncias, transtornos de personalidade e esquizofrenia.
Estudos clássicos mostram que 20% dos pacientes bipolares, 10% dos pacientes com esquizofrenia e 15% dos pacientes em depressão podem se matar.